Num almoço que decorreu em Lisboa nas instalações do Clube dos Jornalistas o Professor Carlos Zorrinho manteve um longo diálogo com o "Diário do Sul", no decorrer do qual dissertou não só acerca do "Plano Tecnológico" de que é o Coordenador Nacional, mas igualmente de outros importantes temas, muitos deles ligados ao Alentejo। Para mais fácil leitura titularemos por ordem os assuntos tratados।
O PLANO TECNOLÓGICO EXIGE ÀS PESSOAS UMA MAIOR PREPARAÇÃO, UM MELHOR CONHECIMENTO. FALAR IDIOMAS (QUE NÃO SEJA SÓ O PORTUGUÊS), E TER UMA CULTURA ACIMA DO NORMAL. AÍ TEREMOS QUE PÔR ESSAS PESSOAS A "CORRER" AO LADO DO PLANO TECNOLÓGICO COM A FINALIDADE DE ATINGIREM UM PATAMAR QUE LHES PERMITA O " FUNCIONAR EM PLENO".
Repare que já temos mais de 650 mil pessoas que passaram pelas novas oportunidades. A Ministra da Educação ainda agora referiu que a nossa ambição é que 3 milhões de portugueses possam fazer esse tipo de requalificação. E eu faço um apelo aos leitores do "Diário do Sul" que se sentem de alguma maneira pouco preparados para estes desafios que agora se colocam, o irem a um Centro de Novas Oportunidades, inscrever-se. Vão encontrar muita gente, alguns vizinhos; vão em grupo, vão em conjunto. Fazem um pequeno curso de 20 horas, têm as suas competências reconhecidas, terão mesmo um computador e um acesso à banda-larga, e vão ver como depois tudo isso lhes permite, por exemplo enviar o IRS através do computador, pedir certidões, fazer um conjunto de coisas que rapidamente compensarão o esforço agora feito. E além de tudo estar mais à vontade para falar com os seus filhos; e estes terão orgulho neles porque haverá uma maior aproximação geracional, que é um problema com que hoje nos confrontamos.
O CEPTCISMO DOS ALENTEJANOS
Neste encontro com o Professor Carlos Zorrinho confrontámo-lo especificamente com aquilo que pode ser considerado "um certo cepticismo alentejano", face a anúncios de grandes projectos para a região, que nalguns nunca são implementados e caem no esquecimento.
Agora fala-se, e acredita-se no programa EMBRAER, em que o senhor teve papel activo, e anunciado em cerimónia avalizada pelo Primeiro-Ministro José Sócrates e pelo Presidente da República Federativa do Brasil Lula da Silva. Mas antes disso já tivemos os episódios dos Auto-Giros e do Skylander. Mas também recentemente algumas vozes, para desvirtuar a situação, ou porque sabem alguma coisa puseram a correr a notícia de que a EMBRAER afinal já não ficava em Évora, mas ficaria localizada em Beja. O que nos pode dizer?
Era óptimo que a EMBRAER pudesse aproveitar as extraordinárias infra-estruturas que nós temos em Beja porque eu acredito que uma vez feitos os investimentos que foram acordados para Évora, a EMBRAER fará mais coisas em Portugal. E não só a EMBRAER como outras empresas aeronáuticas que estão à procura de soluções em Portugal; e era muito importante que nós pensássemos no "cluster" aeronáutico do Alentejo como algo que pode envolver Évora, Beja e Ponte de Sor (onde como sabe também há uma componente, e projectos (não posso detalhar mais, mas de todo projectos importantes) que poderão reforçar numa parceria entre a Covilhã e Ponte de Sor, com um "cluster" aeronáutico na última destas cidades.
Eu compreendo perfeitamente o cepticismo dos alentejanos que depois de toda a história queiram ver de facto a obra. O que lhe posso dizer é que desde que foi assinado o acordo com a EMBRAER não houve um único minuto em que esse projecto não estivesse a evoluir. Não está ainda avançado para a fase de construção no terreno mas sim na sua montagem (financeira, tecnológica e de engenharia) pois trata-se de um projecto com uma dimensão e credibilidade muito diferente de outros projectos que entretanto falharam. Eu lembro-me, e gostaria de recordar quando na época era Coordenador do Pró-Alentejo o surgimento do projecto dos auto-giros. Na altura aquilo que eu defini era um critério muito simples: no mínimo os empreendedores teriam de conseguir mobilizar do ponto de vista privado um (na altura) conto (agora um Euro) a mais daquilo que esperavam do auxílio público; era o mínimo. E na altura eu recordo-me que os auto-giros decidiram que não seriam feitos em Évora, seriam feitos noutro sítio, e que era uma grande perca para a nossa cidade. Eu pergunto-lhe se já viu algum auto-giro construído? Ou seja: eles foram embora e não estão em lado nenhum; era claramente um projecto predador. Só estava ali porque tinham um conjunto de patentes que valorizavam de uma maneira excessiva e queriam que todo o risco da construção fosse do Estado português. O Estado não o assumiu (e ninguém o assumiu) e não há auto-giros em lado nenhum.
Quanto ao Skylander eu desejo que ele seja feito em Paris, embora tenha algumas dúvidas sobre isso. Mas com este projecto passou-se uma coisa muito similar: é que em nenhum momento os promotores estiveram à altura de responder a esta questão: eles próprios encontrarem um financiamento líquido, pelo menos um euro superior àquilo que pretendiam que fosse financiado pelo Estado português. Vamos ver. Deus queira que aconteça em França, não desejo nenhum mal aos promotores do Skylander, mas a verdade é que isso nunca foi possível, e por tal é que nunca foi apresentado um projecto concreto, específico na AICEP (Agência para o Investimento de Comércio Externo de Portugal.
O projecto da EMBRAER é diferente. É evidente que quando oiço notícias sobre a grande crise mundial com a paragem das grandes empresas (com a General Motor ‘s a poder ir à falência) cada um de nós fica preocupado, ou seja: se eventualmente a EMBRAER falir, se calhar não faz a fábrica em Évora; mas até este momento a EMBRAER continua a mostrar uma forte solidez financeira, e uma forte vontade de fazer esse investimento. E é isso que eu espero e desejo: que no primeiro semestre de 2009 haja obra, para que fique claro para todos os eborenses e alentejanos que a EMBRAER não é uma miragem, mas sim um grande projecto que nos vai colocar em termos de visibilidade global muito forte.
Beja não será de maneira nenhuma um entrave. Beja tem uma vocação completamente diferente. Para já eu julgo que seria uma longa história e penso que Beja perdeu uma grande oportunidade em 1998 (isso seria uma grande história) de autonomizar completamente a solução militar para a cidade. De qualquer maneira ela tem fundamentalmente três tipos de vocações que não são absolutamente nada contraditórias com as de Évora. Em Évora o que poderá ser feito é a investigação e produção de componentes aeronáuticos. Temos um bom aeródromo que igualmente permitiu um projecto em que ninguém acreditava e hoje é muito importante: o da Escola de Pilotos. Que foi também algo que envolveu o Pró-Alentejo, a Fundação Eugénio de Almeida, a Universidade a AEROCONDOR, a TAP e a SCHENEIDER. Com toda a gente de costas voltadas com projectos diferentes foi possível (agora vou fazer uma confissão anos depois) porque foram todos para fora de Portugal (não vou dizer onde) fazer uma cimeira para que as pessoas se desligassem das pequenas questiúnculas e conseguissem fazer um acordo para a Escola de Pilotos.
Voltando às vocações de Beja: uma de low-cost (que vai depender daquilo que for o investimento em Alqueva e na Costa Alentejana; outra de aeroporto de carga (que também depende muito do desenvolvimento que for feito em Alqueva, em termos de produtos, e com a ligação a Sines; e tem, daquilo que é o meu ponto de vista, uma enormíssima oportunidade que está a ser estruturada que é a de ser um local onde são reciclados, reparados, recuperados e estacionados aviões. Ou seja: Beja tem um grande aeroporto. Évora o que tem? Tem uma grande localização, e portanto eu acho que Évora e Beja são complementares.
E QUANTO ÀS OPORTUNIDADES?Eu julgo que as novas oportunidades é um dos programas mais interessantes. Aliás o Professor Roberto Carneiro está a fazer um estudo acerca do seu impacto, porque as novas oportunidades fizeram com que muita gente nunca antes pensando voltar à escola tivesse regressado, voltado a valorizar o conhecimento e voltado a sentir uma forte auto-estima pela aprendizagem. E isso é decisivo na nossa sociedade. Nós todos conhecemos gente na nossa terra que voltou à escola, que hoje tem um novo entusiasmo, que voltou a ler, compra livros, tem computador, vai à Internet e inclusivamente motiva mais os seus próprios filhos e os compreende melhor. Um dos problemas que sabemos existir nas famílias portuguesas é a da pouca capacidade de diálogo. Se há uma culpa terá a ver com as diferentes formações e diferentes lógicas e visões do mundo.
É evidente que as novas oportunidades como todos os projectos de grande dimensão podem ter sempre aspectos menos positivos, podem até existir no país, como já me disseram Centros de Novas Oportunidades que são facilitistas। O que eu apelo é para quem souber disso o deve denunciar. Nós não podemos pactuar e minorar o impacto desta medida. Por outro lado também é muito importante que as Novas Oportunidades não sejam um substituto para a formação inicial dos nossos jovens. As Novas Oportunidades são fundamentalmente o modo de requalificar e formar os adultos. E o não pactuar com eventuais jovens que procurem seguir um caminho mais fácil. Porque esse caminho mais fácil hoje, vai tornar a sua vida muito mais difícil.
(Excertos da entrevista ao Dr. Carlos Zorrinho)
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